O que vem depois do Brexit?

Por Marcelo Santos

Olá, galerinha, todo mundo em paz? Sim, eu sei que esta coluna é sobre inglês para vestibulares. Mas abro uma exceção nesta semana. Afinal, como educador e estudioso da cultura britânica, eu não poderia deixar esse acontecimento passar em branco. Então na coluna de hoje emito minha opinião sobre a saída do Reino Unido da União Europeia.

Para compreender isso, precisamos analisar a mente britânica. Os britânicos são o povo que menos se identifica como europeu, segundo pesquisas de opinião pública. Muito disso se deve a serem insulares e não possuírem fronteiras diretas com outros países da Europa. Eles consideram-se “off-Europe”, e ser parte da União Europeia era apenas uma forma de ter maior mercado de trabalho e uma certa segurança. O Reino Unido sempre teve um pezinho dentro e outro fora – tanto que nunca adotaram o euro como moeda, mantendo a libra esterlina. Outro sinal disso é que o Reino Unido não participou da primeira tentativa de um mercado comum europeu, no Tratado de Roma, em 1957.

Esta charge de Chappatte mostra esta falta de identificação do britânico como europeu:

(http://www.englishblog.com/2016/04/cartoon-the-brits-and-europe.html#.V44-6fkrLIV)
O Reino Unido só entrou nessa comunidade européia em 1973 – “por coincidência” um período de crise econômica e decadência de seu império. Entrar na União Europeia não foi uma prova e amor e identificação com o continente, mas sim uma tentativa de fazer o Reino Unido sair de uma crise. O britânico não gostava da ideia de perder parte de sua soberania para o federalismo de um bloco de nações.

Nesta questão da soberania também temos mais um aspecto da cabeça do britânico. A grosso modo, ele não suporta que outras pessoas lhe digam o que deve ser feito. Para que vocês tenham a dimensão disso, o NHS (National Health Service – o serviço de saúde deles) possui extrema dificuldade em estabelecer uma política eficaz para controle do diabetes e doenças alimentares, pela rejeição do povo a ter um órgão governamental dizendo o que eles devem comer ou não. Agora imagine como o britânico reage às normas rígidas de um bloco com quase 30 países? Para que esse bloco funcione como uma unidade, regras bem delimitadas precisam ser estabelecidas.

Somando-se a isso temos o cenário atual: crise econômica na Europa e países em colapso sendo sustentados pelos mais ricos (dinheiro britânico aí). Também há uma crise imigratória grande atingindo a Europa e é claro que os insulares querem ficar bem longe desse pepino. Até porque eles já receberam mais de 1,5 milhão de imigrantes europeus desde 1997, oriundos de países em crise dentro do bloco. Imagina agora receber mais imigrantes, vindos de outros lugares?

Qual a solução mais simples e prática? Sair da União Europeia! Já que nunca se identificaram mesmo como membros desta federação de nações e já foram salvos da crise de 1973, o melhor é abandonar o barco e deixar esta crise do lado de lá do Canal da Mancha.

O grande problema é que isto pode implodir o próprio Reino Unido. A Escócia, que permaneceu no Reino por uma margem pequena em um referendo há pouco tempo, tende a sair agora da tutela da Rainha e permanecer na União Europeia. A opção pelo Brexit pode ter sido um grande tiro no pé, como mostra a charge assinada por Tom.


(http://www.henry4school.fr/UK/history/brexit.htm#cart)
Na minha opinião, perdem os dois. Se juntos poderiam resolver melhor uma crise, separados ambos se afundam ainda mais. O Reino Unido se isola, perde credibilidade e poder econômico, perde mercados – e isto já se reflete em indicadores econômicos.  A União Europeia perde um dos seus membros mais ricos e isto abre precedentes para que outros países façam o mesmo tipo de consulta popular, desmantelando esta federação de nações européias.

Aliás, falando nisso… você já parou para pensar que a Europa nunca foi um continente unido, coeso e de convivência pacífica? Pare e pense na História. Desde sempre a Europa foi terra de conflitos por poder e território. Impérios e Reinos invadindo outros. Matando, dominando, tomando o poder. Este cenário veio até a história recente, com a 2ª Guerra Mundial. O Tratado de Roma (o que posteriormente virou a União Europeia) é a primeira tentativa bem sucedida de uma Europa unida e em paz. Ameaçar a integridade da União Europeia é também ameaçar a paz mundial.

E isto já está ocorrendo. Gibraltar está sob domínio britânico há décadas. Mas assim que o Reino Unido anunciou o resultado do seu referendo, a Espanha já anunciou que quer tomar posse do estreito, por ser de importância estratégica para a Europa. A proposta espanhola é de uma posse compartilhada (com as bandeiras das duas nações fincadas no território) e, em futuro breve, assumir totalmente a posse de Gibraltar, mantendo então o domínio sobre tais terras dentro da União Europeia. Tudo isso pode ser apenas o começo.

Particularmente, vejo um futuro sombrio. Uma Europa em crise financeira e com alto desemprego, recebendo levas de imigrantes, uma extrema-direita cada vez mais forte e com xenofobia em alta e referendos desmantelando a frágil união destes países. Como será o amanhã? Não imagino um belo entardecer vindo desse cenário.

Por hoje é só, pessoal. Abraços e até a próxima semana!

Marcelo Santos é professor de Inglês do Stoodi. Com Licenciatura em Inglês pelo Mackenzie e pós-graduação em Educação pela UFLA, já proferiu palestras em simpósios nacionais e internacionais sobre ensino de idiomas e educação. Atualmente é professor de cursinhos pré-vestibulares no estado de São Paulo.

Campanha Always On Cronograma