Estamos muito acostumados com obras literárias que são escritas e publicadas por seus autores na íntegra. No entanto, há um outro tipo de Literatura pouco conhecido por grande parte das pessoas: a compilação. É justamente esse o caso de Poemas escolhidos, de Gregório de Matos.

Aqui, temos uma espécie de “greatest hits” — aquele tipo de álbum que concentra as melhores músicas de um cantor ou banda — de um grande artista, único em seu tempo — o Barroco — e marcante até os dias atuais.

Vai prestar a prova da Fuvest e não faz ideia de como começar a leitura de Poemas escolhidos? Então, não se preocupe. A seguir, faremos um apanhado sobre a obra, tornando-a mais facilmente compreensível para que você possa, finalmente, se aventurar em suas páginas. Boa leitura!

Análise da obra Poemas escolhidos

Parece difícil imaginar — especialmente para nós, que estamos tão inseridos em um meio tecnológico —, mas houve um tempo em que nada era publicado. As histórias passavam de boca em boca e eram contadas aleatoriamente por aqueles que faziam parte de um determinado grupo.

É nesse contexto que a obra Poemas escolhidos começou a ser desenhada. Gregório de Matos viveu em um tempo no qual não havia a publicação de qualquer tipo de material. Sendo assim, ele contou com a população para eternizar e guardar as suas obras que, posteriormente, foram divulgadas em uma coletânea: Poemas escolhidos.

Em um quase Trovadorismo, Matos compôs uma das mais singulares obras literárias de nosso país.

Uma das características mais marcantes dessa obra é a dualidade. O autor estava inserido em um período repleto de múltiplos acontecimentos, com novidades e com um forte embate entre o velho e o novo. Nada mais natural, portanto, que ele mesmo seguisse esse rumo em sua escrita.

A seguir, veremos mais sobre as características marcantes de Poemas escolhidos.

Poemas escolhidos: resumo

Resumir um livro de poesias é algo difícil de ser feito. No entanto, podemos dar continuidade ao tópico anterior e seguir mencionando algumas das características marcantes dessa obra. Isso certamente ajudará bastante tanto em sua leitura quanto na hora do vestibular!

A literatura em Poemas escolhidos pode ser definida em vários tipos: a poesia satírica, a lírica, a erótica, a religiosa e a encomiástica. A seguir, veremos um pouco sobre cada uma delas.

Poesia lírica

Como mencionado anteriormente, Gregório de Matos era quase um trovador. E, por isso, também falava bastante sobre o amor!

A poesia lírica é aquela que expressa os sentimentos de nosso autor pela mulher amada. Além disso, aborda as angústias e os dissabores que o amor pode trazer.

Discreta e formosíssima Maria,

Enquanto estamos vendo a qualquer hora

Em tuas faces a rosada Aurora,

Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia

O ar, que fresco Adônis te namora,

Te espalha a rica trança voadora,

Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,

Que o tempo trota a toda ligeireza,

E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade

Te converta em flor, essa beleza

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Poesia satírica

A produção satírica de Matos é um de seus pontos fortes. É aqui que ele faz jus à alcunha recebida (Boca do Inferno) e destila todas as suas opiniões sobre a sociedade em geral, muitas delas pouco bem-vistas pelo povo.

Confira, a seguir, um exemplo clássico desse tipo de poema:

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar a cabana, e vinha,

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um frequentado olheiro,

Que a vida do vizinho, e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,

Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.

Poesia encomiástica

Esse é um tipo de poesia mais incomum no repertório de Matos. No entanto, ela ainda é bem presente e merece ser mencionada!

Apesar do nome difícil, esse tipo de texto nada mais é do que um louvor a alguém. Uma forma de exaltar uma pessoa, elogiando-a. Segue um exemplo:

Douto, prudente, nobre, humano, afável.

Reto, ciente, benigno e aprazível.

Único, singular, raro, inflexível.

Magnífico, preclaro, incomparável.

Poesia erótica

Outro tipo de poesia normalmente escrita por Gregório de Matos era a erótica, também conhecida como erótico-pornográfica ou obscena. No entanto, fique calmo!

Essa produção era chocante para a época em que foi escrita, mas, atualmente, é considerada bastante respeitosa. Confira um exemplo:

O amor é finalmente

um embaraço de pernas,

uma união de barrigas,

um breve tremor de artérias

Uma confusão de bocas,

uma batalha de veias,

um reboliço de ancas,

quem diz outra coisa, é besta.

Poesia religiosa

A poesia religiosa de Matos é um dos períodos que permeiam o final de sua vida. Esse é, sem dúvidas, um final inusitado para alguém que dedicou os dias a chocar a sociedade.

Uma das características mais fortes desse período é a constante busca pelo perdão, para que, após a morte, a pessoa possa alcançar o céu.

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte

Não se sabendo parte deste todo,

Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.

Sobre Gregório de Matos

Caso você não saiba, Gregório de Matos era — e ainda é — conhecido pelo apelido de Boca do Inferno. Apenas com essa informação, já é possível ter uma breve ideia de quão arrebatadora era a escrita e a verbalização desse artista, não é mesmo?

Agora, imagine toda essa ferocidade em um Brasil Colonial, conservador e cheio de “não me toques”. Não é à toa que esse autor se tornou muito famoso e respeitado por aqueles que compartilhavam de suas ideias.

Além de criticar a situação do Brasil naquele período, Matos se encarregou de colocar o país em suas obras. Ele foi um dos pioneiros na literatura nacionalista, fazendo com que brasileiros e portugueses ficassem por dentro do que realmente acontecia em nosso território.

Ele nasceu em Salvador e faleceu em Recife, deixando o legado de um verdadeiro nordestino sem “papas na língua” em nossa Literatura.

E aí, curtiu o texto? Esperamos que ele tenha ajudado a entender mais sobre o livro Poemas escolhidos! Agora, dê uma olhadinha em nossos exercícios sobre o período Barroco no Brasil e aprimore os seus conhecimentos com nosso Cronograma de Estudos!

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