“Peleumonia”, variantes linguísticas e norma culta

Por Marina Sestito

Stoodianos,

Repercutiu, nas mídias sociais, a imagem de um médico debochando da forma como um paciente se referiu à doença com a qual tinha sido diagnosticado: “peleumonia”, em vez de “pneumonia”. A atitude do médico reflete o que chamamos de preconceito linguístico e discrimina aqueles que não se adequam ao que é tido como Norma Padrão da Língua Portuguesa.
“Mas, professora, não é ruim escrever errado?”

A discussão começa por aí: não existe “errado”. A escrita e a fala são construções contínuas, estão em constante mudança e permitem muitas variações, de acordo com as diferentes regiões, contextos sociais e épocas em que se fala ou se escreve. A forma como escreve um advogado de São Paulo é, muitas vezes, diferente da forma como ele fala quando está conversando com pessoas de seu círculo social.

Temos aqui uma variação do discurso: fala de um jeito quando conversa com os amigos e escreve de outro quando elabora petições. Mais ainda: um advogado de São Paulo escreve uma petição como um advogado de Alagoas? O vocabulário é sempre o mesmo? Um advogado de São Paulo escreve um bilhete como um vendedor ambulante de São Paulo? Um vendedor ambulante de São Paulo escreve uma carta de amor da mesma forma como um vendedor ambulante de Alagoas o faz? Um advogado de São Paulo do século XXI escreve uma crítica literária usando o mesmo vocabulário e a mesma ortografia utilizada por um advogado de São Paulo do século XIX?

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Provavelmente não.
Isso quer dizer que algum desses advogados ou que algum desses vendedores ambulantes esteja errado? Algum deles não sabe escrever?

Não é isso. O que acontece, nesses casos, é uma variação linguística. Cada pessoa emprega a linguagem de uma forma mais adequada ao contexto em que é construído esse discurso, seja elaborando uma petição, seja escrevendo uma carta de amor, seja fazendo uma crítica literária ou deixando um bilhete. Para cada contexto, uma linguagem diferente.

Então você pode escrever a sua redação como quiser no dia do vestibular, e o corretor vai ter que entender o contexto social e regional em que você está inserido, sem descontar pontinhos nos critérios que avaliam a linguagem empregada no texto? Pode escrever como fala? Pode empregar gírias, termos regionais e linguagem coloquial na redação?

Não, não pode. Para cada contexto, o tipo de linguagem empregada pode variar bastante, mas a modalidade de escrita que foi convencionado empregar em situações de avaliação, como em vestibulares, é, sobretudo, a norma culta, a famigerada Norma Padrão da Língua Portuguesa. Apesar de todas essas variações linguísticas serem tão legítimas, o registro solicitado nas redações de vestibular e de concursos é geralmente aquela que a gente aprende na escola, aquela que é tida como o padrão.

Ou seja: em todos os outros momentos da sua vida, você pode falar e escrever como se sentir mais confortável, mas, na redação do vestibular, a forma mais adequada é a Norma Padrão da Língua Portuguesa, tudo bem? Sem gíria, sem coloquialismo, colocando todos os acentos nas palavras e tudo mais que vocês estão cansados de estudar em Língua Portuguesa.

Muitos beijos, escrevam bastante e até semana que vem!

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Marina Sestito é a Coordenadora de Redação do Stoodi. Formou-se em Filosofia pela FFLCH, na USP – atualmente cursa Licenciatura na FEUSP. Trabalhou em cursinhos pré-vestibulares e hoje comanda a equipe de correção do Stoodi.