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Exercícios de Gramática

Listagem de exercícios

IFCE 2014

De como o narrador, com certa experiência anterior e agradável, dispõe-se a retirar a verdade do fundo do poço

 

Minha intenção, minha única intenção, acreditem! é apenas restabelecer a verdade. A verdade completa, de tal maneira que nenhuma dúvida persista em torno do comandante Vasco Moscoso de Aragão e de suas extraordinárias aventuras.

 

“A verdade está no fundo de um poço”, li certa vez, não me lembro mais se num livro ou num artigo de jornal. Em todo caso, em letra de forma, e como duvidar de afirmação impressa? Eu, pelo menos, não costumo discutir, muito menos negar, a literatura e o jornalismo. E, como se isso não bastasse, várias pessoas gradas repetiram-me a frase, não deixando sequer margem para um erro de revisão a retirar a verdade do poço, a situá-la em melhor abrigo: paço (“a verdade está no paço real”) ou colo (“a verdade se esconde no colo das mulheres belas”), polo (“a verdade fugiu para o Polo Norte”) ou povo (“a verdade está com o povo”). Frases, todas elas, parece-me, menos grosseiras, mais elegantes, sem deixar essa obscura sensação de abandono e frio inerente à palavra “poço”.

 

O meritíssimo dr. Siqueira, juiz aposentado, respeitável e probo cidadão, de lustrosa e erudita careca, explicou-me tratar-se de um lugar-comum, ou seja, coisa tão clara e sabida a ponto de transformar-se num provérbio, num dito de todo mundo. Com sua voz grave, de inapelável sentença, acrescentou curioso detalhe: não só a verdade está no fundo de um poço, mas lá se encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua.

 

O dr. Alberto Siqueira é o cimo, o ponto culminante da cultura nesse subúrbio de Periperi onde habitamos. É ele quem pronuncia o discurso do Dois de Julho na pequena praça e o de Sete de Setembro no grupo escolar, sem falar noutras datas menores e em brindes de aniversário e batizado. Ao juiz devo muito do pouco que sei, a essas conversas noturnas no passeio de sua casa; devo-lhe respeito e gratidão. Quando ele, com a voz solene e o gesto preciso, esclarece-me uma dúvida, naquele momento tudo parece-me claro e fácil, nenhuma objeção me assalta. Depois que o deixo, porém, e ponho-me a pensar no assunto, vão-se a facilidade e a evidência, como, por exemplo, nesse caso da verdade. Volta tudo a ser obscuro e difícil, busco recordar as explicações do meritíssimo e não consigo. Uma trapalhada. Mas, como duvidar da palavra de homem de tanto saber, as estantes entulhadas de livros, códigos e tratados? No entanto, por mais que ele me explique tratar-se apenas de um provérbio popular, muitas vezes encontro-me a pensar nesse poço, certamente profundo e escuro, onde foi a verdade esconder sua nudez, deixando-nos na maior das confusões, a discutir a propósito de um tudo ou de um nada, causando-nos a ruína, o desespero e a guerra.

 

Poço não é poço, fundo de um poço não é o fundo de um poço, na voz do provérbio isso significa que a verdade é difícil de revelar-se, sua nudez não se exibe na praça pública ao alcance de qualquer mortal. Mas é o nosso dever, de todos nós, procurar a verdade de cada fato, mergulhar na escuridão do poço até encontrar sua luz divina.

 

“Luz divina” é do juiz, como aliás todo o parágrafo anterior. Ele é tão culto que fala em tom de discurso, gastando palavras bonitas, mesmo nas conversas familiares com sua digníssima esposa, dona Ernestina. 1“A verdade é o farol que ilumina minha vida”, costuma repetir-se o meritíssimo, de dedo em riste, quando, à noite, sob um céu de incontáveis estrelas e pouca luz elétrica, conversamos sobre as novidades do mundo e de nosso subúrbio. Dona Ernestina, gordíssima, lustrosa de suor e um tanto quanto débil mental, concorda balançando a cabeça de elefante. Um farol de luz poderosa, iluminando longe, eis a verdade do nobre juiz de direito aposentado.

 

Talvez por isso mesmo sua luz não penetre nos escaninhos mais próximos, nas ruas de canto, no escondido beco das Três Borboletas onde se abriga, na discreta meia-sombra de uma casinha entre árvores, 2a formosa e risonha mulata Dondoca, cujos pais procuraram o meritíssimo quando Zé Canjiquinha desapareceu da circulação, viajando para o sul.

 

Passara Dondoca nos peitos, na frase pitoresca do velho Pedro Torresmo, pai aflito, e largara a menina ali, sem honra e sem dinheiro:

 

– No miserê, doutor juiz, no miserê...

 

O juiz deitou discurso moral, coisa digna de ouvir-se, prometeu providências. E, à vista do tocante quadro da vítima a sorrir entre lágrimas, afrouxou um dinheirinho, pois, sob o peito duro da camisa engomada do magistrado, pulsa, por mais difícil que seja acreditar-se, pulsa um bondoso coração. Prometeu expedir ordem de busca e apreensão do “sórdido dom-juan”, esquecendo-se, no entusiasmo pela causa da virtude ofendida, de sua condição de aposentado, sem promotor nem delegado às ordens. Interessaria no caso, igualmente, seus amigos da cidade. O “conquistador barato” teria a paga merecida...

 

E foi ele próprio, tão cônscio é o dr. Siqueira de suas responsabilidades de juiz (embora aposentado), dar notícias das providências à família ofendida e pobre, na moradia distante. Dormia Pedro Torresmo, curando a cachaça da véspera; labutava no quintal, lavando roupa, a magra Eufrásia, mãe da vítima, e a própria cuidava do fogão. Desabrochou um sorriso nos lábios carnudos de Dondoca, tímido mas expressivo, o juiz fitou-a austero, tomou-lhe da mão:

 

– Venho pra repreendê-la...

 

– Eu não queria. Foi ele... – choramingou a formosa.

 

– Muito malfeito – segurava-lhe o braço de carne rija.

 

Desfez-se ela em lágrimas arrependidas e o juiz, para melhor repreendê-la e aconselhá-la, sentou-a no colo, acariciou-lhe as faces, beliscou-lhe os braços. Admirável quadro: a severidade implacável do magistrado temperada pela bondade compreensiva do homem. Escondeu Dondoca o rosto envergonhado no ombro confortador, seus lábios faziam cócegas inocentes no pescoço ilustre.

 

Zé Canjiquinha nunca foi encontrado, em compensação Dondoca ficou, desde aquela bem-sucedida visita sob a proteção da justiça, anda hoje nos trinques, ganhou a casinha no beco das Três Borboletas, Pedro Torresmo deixou definitivamente de trabalhar. Eis aí uma verdade que o farol do juiz não ilumina, foi-me necessário mergulhar no poço para buscá-la. Aliás, para tudo contar, a inteira verdade, devo acrescentar ter sido agradável, deleitoso mergulho, pois 3no fundo desse poço estava o colchão de lã de barriguda do leito de Dondoca onde ela me conta – depois que abandono, por volta das dez da noite, a prosa erudita do meritíssimo e de sua volumosa consorte – divertidas intimidades do preclaro magistrado, infelizmente impróprias para letra de fôrma.

AMADO, Jorge. Os velhos marinheiros: duas histórias do cais da Bahia. 23.ed. São Paulo: Martins, s.d., p.p. 71-73

 

 

Dê a devida atenção ao que se afirma sobre os pronomes relativos destacados nos excertos abaixo, extraídos do texto.

 

I. Em “A verdade é o farol queilumina minha vida”– ref. 1 – o pronome relativo “que” refere-se à “verdade” e exerce a função sintática de sujeito do verbo iluminar.

II. Em “(...) a formosa e risonha mulata Dondoca, cujospais procuraram o Meritíssimo quando Zé Canjiquinha desapareceu da circulação, viajando para o sul.”– ref. 2 – o pronome relativo “cujos”, ainda que concorde em gênero e número com o seu consequente “pais”, refere-se ao seu antecedente “a formosa e risonha mulata Dondoca”, exprimindo uma ideia de posse.

III. Em “(...) no fundo desse poço estava o colchão de lã de barriguda do leito de Dondoca ondeela me conta (...) divertidas intimidades do preclaro magistrado, (...)”– ref. 3 – o pronome relativo “onde” refere-se, de forma mais precisa, ao termo “colchão de lã” e expressa uma ideia de lugar.

 

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