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Exercícios de Gramática

Listagem de exercícios

PUC-CAMPINAS 2015

“O que você quer ser quando crescer?”

 

Toda criança ouve essa pergunta dezenas de vezes. Quase sempre há uma resposta, dada por ela mesma (bombeiro! piloto de fórmula 1! mágico! cantor!) ou pelos zelosos paizinhos (médico! engenheiro! advogado!). Ao que parece ninguém dá muita importância ao que se designa por "vocação", do latim vocare, isto é, chamar: somos levados a exercer uma profissão para a qual fomos chamados. Vinda de fora ou de dentro de nós, essa “voz” nos leva a ser professores, músicos, atores, malabaristas − e até médicos e engenheiros, por que não? Essa voz atua com muita força, mas muitos de nós acabam por se desviar dela.

 

Há vocações irresistíveis, como a do renascentista Michelangelo: diante da escultura recém-finalizada de Moisés, bateu no joelho de mármore e gritou: − Fala! Reconheceu, ali, a força viva da obra que criara e, com ela, a de uma plena vocação. E há vocações macabras: o fisiologista francês Antoine Louis, ao tempo da Revolução Francesa, inventou a guilhotina; cientistas vocacionados e bem-intencionados acabam inadvertidamente contribuindo para a criação de armas de eliminação em massa, como a bomba atômica, de catastrófica lembrança ao final da II Guerra. São numerosas as vocações que não se cumprem: Maquiavel podia ter sido um príncipe italiano, na dividida Itália do século XVI, pois escreveu um tratado clássico sobre essa figura poderosa, mas se limitou a ser um escritor e diplomata. Por sua vez, Napoleão Bonaparte, que leu e comentou Maquiavel, tinha fortes aspirações de escritor. Entre nós, D. Pedro II parecia amar mais a literatura do que o poder imperial: protegeu escritores ao longo de seu reinado. Poeta, Manuel Bandeira confessava ter preferido ser músico, e Carlos Drummond de Andrade formou-se em Farmácia sem jamais exercer o ofício, trabalhando como funcionário público e jornalista: seus estudos farmacêuticos renderam-lhe tão-somente uma referência aos álcoois, num de seus poemas. Na prosa, Graciliano Ramos era um escritor tão vocacionado que até seus relatórios administrativos de prefeito tornaram-se documentos de valor literário.

 

Décadas atrás, um jovem ingressante do ensino médio, então chamado “curso colegial”, decidia-se já pelas humanidades (o “Clássico”), pelas exatas (o “Científico”) ou pela pedagogia (o “Normal”). No atual sistema de seleção do vestibular, pretende-se quase sempre que o aluno tenha noções básicas de todas as disciplinas. De Pitágoras e Sócrates a Darwin e a Einstein, dos tempos homéricos à fissão nuclear, o vestibulando de hoje enfrentará uma espécie de radiografia fundamental do saber e da história dos homens de todas as épocas.

 

A modernidade trouxe consigo uma multiplicação extraordinária de profissões e ocupações possíveis. Somente na área da Informática, o jovem tem diante de si desde a programação de softwares hardwares até a criação de blogs, da publicidade digital à manifestação política nas redes sociais. A parafernália eletrônica continua em expansão: quem saberá dizer quais próximos passos determinarão quais novas especialidades?

 

O que não se pode esquecer é que o atendimento a uma vocação − seja ela qual for − é praticamente uma garantia de realização pessoal. Descontadas as condições indignas em que um trabalho se dê − caso da escravatura, da exploração de mão de obra barata, das atividades insalubres etc. − toda atividade pode ser intrinsecamente gratificante. Há o pequeno lavrador que ama a terra, o funcionário que esbanja sociabilidade em sua função, o motorista zeloso e amigo dos passageiros. Se o executivo se embebeda em casa para esquecer a ambição que o faz infeliz no escritório, estará ele atendendo a alguma vocação? E o palhaço do circo pobre, lutando contra todas as dificuldades, não pode refletir em si mesmo a alegria que distribui?

 

Vocare, chamar, chamamento: somos capazes de ouvir bem essa voz supostamente instalada dentro de nós? Concorrendo com ela, ou contra ela, há as vozes poderosas do “mercado”, essa entidade que acaba por reger tantas vidas. Em vez da vocação, a “boa oportunidade”, o “melhor ganho”: traça-se uma linha reta entre os pretendentes e algum pote de dinheiro, e começa a corrida. Entre o químico promissor e o laboratório surge a corrida da Bolsa; entre o provável grande biólogo e os estudos genéticos de ponta arma-se a promessa do dinheiro fácil das vendas; entre o jovem violoncelista e as sonatas clássicas surge um cargo burocrático insosso mas estável. E é de se perguntar: e os políticos, quantos estarão cumprindo de fato a vocação original de cuidar bem da polis, ou seja, dos interesses públicos?

 

As vocações bem atendidas são mais que simples realizações pessoais: são as células saudáveis que constituem da melhor forma o melhor tecido social.

(Adalberto Cruz e Silva, inédito)​

 

 

Essa voz atua com muita força, mas muitos de nós acabam por se desviar dela.

 

Outra formulação para a frase acima, que seja clara e correta e que não prejudique o sentido original, é:

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