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PUC-GO 2016

Aprígio – Saia, Dália! (Dália abandona o quarto, correndo, em desespero. Sogro e genro, face a face) Vim aqui para.

 

Arandir (para o sogro quase chorando) – Está satisfeito?

 

Aprígio – Vim aqui.

 

Arandir (na sua cólera) – Está satisfeito? O senhor é um dos responsáveis. Eu acho que é o senhor. O senhor que está por trás...

 

Aprígio – Quem sabe?

 

Arandir – Por trás desse repórter. O senhor teve a coragem de. Ou pensa que eu não sei? Selminha me contou. Contou tudo! O senhor fez insinuações. Insinuações! A meu respeito!

 

Aprígio – Você quer me.

 

Arandir (sem ouvi-lo) – O senhor fez tudo! Tudo pra me separar de Selminha!

 

Aprígio – Posso falar?

 

Arandir (erguendo a voz) – O senhor não queria o nosso casamento!

 

Aprígio (violento) – Escuta! Vim aqui saber! Escuta! Você conhecia esse rapaz?

 

Arandir (desesperado) – Nunca vi.

 

Aprígio – Era um desconhecido?

 

Arandir – Juro! Por tudo que há de mais! Que nunca, nunca!

 

Aprígio – Mentira! Arandir (desesperado) – Vi pela primeira vez!

 

Aprígio – Cínico! (muda de tom, com uma Ferocidade) Escuta! Você conhecia o rapaz. Conhecia! Eram amantes! E você matou. Empurrou o rapaz!

 

Arandir (violento) – Deus sabe!

 

Aprígio – Eu não acredito em você. Ninguém acredita. Os jornais, as rádios! Não há uma pessoa, uma única, em toda a cidade. Ninguém!

 

Arandir (com a voz estrangulada) – Ninguém acredita, mas eu! Eu acredito, acredito em mim!

 

Aprígio – Você, olha!

 

Arandir – Selminha há de acreditar!

 

Aprígio (fora de si) – Cala a boca! (muda de tom) Eu te perdoaria tudo! Eu perdoaria o casamento. Escuta! Ainda agora, eu estava na porta ouvindo. Ouvi tudo. Você tentando seduzir a minha filha menor!

 

Arandir – Nunca!

 

Aprígio – Mas eu perdoaria, ainda. Eu perdoaria que você fosse espiar o banho da cunhada. Você quis ver a cunhada nua.

 

Arandir – Mentira!

 

Aprígio – Eu perdoaria tudo. (mais violento) Só não perdoo o beijo no asfalto. Só não perdoo o beijo que você deu na boca de um homem!

 

Arandir (para si mesmo) – Selminha!

 

Aprígio (muda de tom, suplicante) – Pela última vez, diz! Eu preciso saber! Quero a verdade! A verdade! Vocês eram amantes? (sem esperar a resposta, furioso) Mas não responda. Eu não acredito. Nunca, nunca, eu acreditarei. (numa espécie de uivo) Ninguém acredita!

 

Arandir – Vou buscar minha mulher. (Aprígio recua, puxando o revólver.)

 

Aprígio (apontando) – Não se mexa! Fique onde está!

 

Arandir (atônito) – O senhor vai.

 

Aprígio – Você era o único homem que não podia casar com a minha filha! O único!

 

Arandir (atônito e quase sem voz) – O senhor me odeia porque. Deseja a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha.

 

Aprígio (num berro) – De você! (estrangulando a voz) Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro, que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver.

 

(Aprígio atira, a primeira vez. Arandir cai de joelhos. Na queda, puxa uma folha de jornal, que estava aberta na cama. Torcendo-se. abre o jornal, como uma espécie de escudo ou bandeira. Aprígio atira, novamente, varando o papel impresso. Num espasmo de dor, Arandir rasga a folha. E tomba, enrolando-se no jornal. Assim morre.)

 

Aprígio – Arandir! (mais forte) Arandir! (um último canto) Arandir!

 

Cai a luz, em resistência, sobre o cadáver de Arandir. Trevas.

(RODRIGUES,  Nelson. O beijo no asfalto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 101-104.)

 

 

Based on the tone of the Text 4, which of the following words best describes the dialogue between Aprígio and Arandir:

Escolha uma das alternativas.