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UEFS 2016

Fiquei prostrado. 1E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável; 2faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...
3Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Modena, e que se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; 4ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor... Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação...
5Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Objetiva, 2001. p. 70-71.

O texto em destaque é um fragmento da famosa obra realista de Machado de Assis, intitulada Memórias Póstumas de Brás Cubas. O narrador-personagem é um defunto que foi um homem rico e solteiro em vida e resolve narrar a sua própria história depois de morto, emitindo opiniões sem se preocupar com o julgamento que os vivos poderiam dele fazer.

A leitura do fragmento transcrito da obra permite afirmar que o sujeito narrador descreve características de sua personalidade, revelando,

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