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UFJF 2014

Texto I

A AÇÃO SOB UM NOVO OLHAR

 O cineasta Luc Besson é catalogado como o diretor francês que mais se parece com um profissional americano de Hollywood, por seus longas serem carregados de ação explosiva, além de quase sempre protagonizados por anti-heróis típicos de produções da terra do Tio Sam. A presença de astros consagrados reforça essa definição — basta lembrar filmes icônicos como “Nikita” (que virou até seriado nos EUA), “O profissional”, “O quinto elemento” e as franquias “Carga explosiva” e “Busca implacável”. A diferença de Besson está no modo inteligente como ele insere, num peculiar cinema comercial, arte e reflexão sem parecer picaretagem, conseguindo atrair a simpatia de diferentes públicos.

 “Lucy” é o mais novo projeto com essa sua marca: a estrela Scarlett Johansson surge numa história que, num primeiro momento, lembra um filme de super-herói. Scarlett faz uma mulher acidentalmente envolvida na negociação de uma droga experimental, que, ao entrar em sua circulação, faz com que ela aumente a utilização de seu cérebro em 100%. A turbinada resolve então procurar um pesquisador (Morgan Freeman) do assunto, ao mesmo tempo em que um traficante está à sua procura.

 Com o filme colocado dessa forma, Lucy parece uma prima próxima da personagem Viúva Negra, também interpretada por Scarlett na série de filmes com super-heróis da Marvel — igualmente com cenas eletrizantes de luta. Mas “Lucy” (no original) também faz uma reflexão em torno de questões como evolução, metafísica e tempo. Percebe-se que Besson se diverte pelo jeito como desenvolve a narrativa: a cada estágio de transformação de Lucy, o diretor intercala as explicações científicas do tal pesquisador. Tudo de maneira a sustentar o conceito por trás da trama, desenvolvido com extrema habilidade e num ritmo propositalmente acelerado com objetivo de dar credibilidade ao improvável.

A AÇÃO sob um novo olhar. Disponível em: . Acesso em: 16 de agosto de 2014

 

 

Texto II

LUCY

Entrevistamos especialista para desvendar o mito cerebral

Doutor em psicobiologia nos ajuda a conhecer a verdade por trás da trama

por Rafael Sanzio

Lucy, filme de Luc Besson com Scarlett Johansson como protagonista, estreia […] no dia 28 de agosto nos cinemas brasileiros. O filme aborda o mito de que o ser humano só usa 10% de seu cérebro e que, através de uma droga, a personagem principal começa a desenvolver todo o potencial cerebral. Depois de conferirmos o trailer, o Fique Ligado quis saber a verdade sobre toda essa história. Entrevistamos Nelson Torro Alves, doutor em psicobiologia na USP e membro fundador do Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento, para sabermos mais sobre o potencial cerebral, já que o professor de 39 anos também é membro permanente do Programa de Pósgraduação em Neurociência Cognitiva e Comportamento da Universidade Federal da Paraíba – o cara certo para tirar nossas dúvidas! [...]

 Na trama do filme Lucy é dito que nós, humanos, somos capazes de utilizar 10% de nosso cérebro. Isso é verdade ou é um mito? Ficamos estacionados na porcentagem ou podemos aumentá-la de forma natural?

Nelson Torro: Definitivamente, é um mito. Em primeiro lugar, não há evidências científicas que sustentem a afirmação de que usamos um dado limite do cérebro (p. ex. 10, 20 ou 60%). Existem várias complicações nessa suposição. Por exemplo, como podemos medir com relativa certeza quanto do cérebro está sendo usado? É um problema também do ponto de vista biológico: por que razão teríamos um cérebro tão potente e só usaríamos parte de nossos recursos? O cérebro, tal como funciona, já é muito dispendioso para o organismo, consumindo cerca de 20% de toda a energia corporal. Além disso, os organismos não teriam vantagens adaptativas desenvolvendo um sistema tão complexo, mas que permanecesse inutilizado.

 Há registros de uma porcentagem maior que a média?

Nelson Torro: O grande problema é como medir o uso do cérebro. Não existem bons parâmetros para isso.

 Lucy vai ganhando novas habilidades à medida que aumenta a capacidade cerebral. Com 20% ela consegue controlar as células do corpo. Com 50% ela controla a matéria e com 60% ela pode controlar pessoas. O que há de verdade nisso e o que há de exagero?

Nelson Torro: Pelo que sabemos atualmente, tudo é um exagero. No máximo, um cérebro mais “potente” tornaria a pessoa mais inteligente, com melhor memória ou mais atenta.

 Há drogas que aumentam o potencial cerebral da pessoa? Como isso é possível?

Nelson Torro:Existem drogas que parecem aumentar as funções atencionais e a concentração, tal como o metilfenidato, que é o princípio ativo dos medicamentos Ritalina e Concerta, usados no tratamento de crianças com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Mesmo em adultos saudáveis, o medicamento parece ter um efeito benéfico sobre o raciocínio e aprendizado. No entanto, essa é uma questão polêmica, pois não sabemos quais são as consequências a longo prazo do uso desses medicamentos, que podem afetar a dinâmica do funcionamento cerebral. Seria muito recomendada uma droga tradicional de aumento do potencial cerebral, a cafeína, presente no café e guaraná, por exemplo. O café promove o alerta e estimula as funções cerebrais, além disso, em doses moderadas, traz outros benefícios à saúde.

 Na maioria das cenas de Lucy é como se ela ganhasse super poderes, contudo deve haver um lado ruim nesse uso exagerado do cérebro. Quais as desvantagens do uso em demasia do nosso cérebro? Aguentaríamos o tranco, tanto fisicamente como psicologicamente?

Nelson Torro: É bem possível que houvesse consequências negativas, caso isso ocorresse. Existem muitos relatos de pessoas com capacidade de memória extraordinária, mas que não se tornaram necessariamente mais inteligentes ou mais bem-sucedidas por conta disso.

 Com os estudos atuais dessa área, acredita que iremos descobrir algum dia o verdadeiro potencial de nosso cérebro?

Nelson Torro: Acho que esse potencial já é conhecido. Nosso cérebro é muito bom, flexível o bastante para aprendermos coisas novas durante a toda vida. A exemplo da personagem do filme, podemos aprender também chinês; não em uma hora, mas podemos aprender. Podemos também adquirir novas habilidades graças à plasticidade cerebral, incluindo habilidades motoras, tal como esporte ou dança, conhecimentos gerais (matemática, história, literatura) e habilidades musicais, por exemplo.

 Vendo o trailer do filme, qual a porcentagem de veracidade dos poderes adquiridos pelo cérebro de Lucy?

Nelson Torro: Nesse caso, é mais fácil quantificar: 0%. (risos)

 Em sua opinião, o que poderemos fazer ao alcançarmos 100% da nossa capacidade cerebral?

Nelson Torro:Sempre vale a pena investirmos no aprendizado de novas habilidades e conhecimentos. Torna a vida mais mental mais rica.

ALVES, Nelson Torro. Entrevista. Disponível em: . Acesso em: 16 de agosto de 2014

 


Tanto o Texto I quanto o Texto II afirmam que:

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