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Exercícios de Gramática

Listagem de exercícios

UFU 2004

    1É bastante comum a percepção cotidiana do luxo com um assunto leviano, supérfluo, símbolo de ostentação e poder de uma sociedade perversa, em desvario e "desbussolada". O que é bastante curioso é que, por muitos milênios, o luxo foi percebido de uma maneira bem diferente. Desde a era paleontológica até a Idade Moderna, o luxo tem servido de elemento para acalmar o homem. Existem registros da época do homem das cavernas que apontam o luxo como sinal de identidade, da relação do homem com algo maior do que ele, incompreensível e inapreensível, e que, mais tarde, muitos viriam a chamar de Deus.
    7Nas festas primitivas, a diminuição das riquezas de uma tribo em função de oferendas a Deus SIGNIFICAVA ASSEGURAR um novo ciclo de vida, um rejuvenescimento, uma recriação do mundo. 13No período medieval, quando uma cidade QUERIA ADQUIRIR status, ERA EDIFICADA uma catedral a custo de muitas privações dos cidadãos. No início da Era Clássica, as classes privilegiadas DOAVAM por testamento suas riquezas à Igreja, a fim de preparar a salvação eterna. 3Sacrifícios como esses ERAM FEITOS em louvor a Deus, pois 15o luxo ERA a marca da aliança, a maneira que o homem encontrou de não se perder. O luxo SITUAVA o homem em relação a Deus ou aos deuses.
    16O luxo carregou um significado sagrado até a Revolução Francesa, quando se degenerou em batalha pela hierarquia social. O luxo passou de Deus para âmbito da pura exibição burguesa, algo necessário para o confronto com o outro em uma base do "quem pode mais". No entanto, se é inegável que as condutas de luxo são indissociáveis dos afrontamentos simbólicos entre os homens, existem razões para acreditarmos que, diante de um mundo globalizado e da evaporação da hierarquia social em favor da multiplicação em pequenos mundos, 11estamos recuperando o antigo sentido divino do luxo.
    17Em um tempo de individualismo galopante, é inegável a necessidade que o indivíduo tem de se destacar da massa, de não ser como o outro, de se sentir exceção. 4Como dizia Nietzsche, em "Além do Bem e do Mal", existe um prazer de se saber diferente. 8No entanto, a despeito da sobrevivência das motivações elitistas, tais motivações não são mais fundadas na ostentação social. 9Agora fundam-se no sentimento da distância em relação ao outro, na diferença que se busca por obtenção de coisas raras, singulares, que fazem um furo no comum e que definem uma pessoalidade singular, alheia às formas e aos padrões convencionais. Hoje, o luxo está mais a serviço da promoção de uma imagem singular do que de uma imagem de classe.
    O luxo está em via de "desinstitucionalização", paralelamente ao que está ocorrendo nas esferas da família, da sexualidade, da religião, da moda e da política. A emergência de uma relação mais afetiva, mais sensível aos bens de luxo tem despertado novas formas de consumo dispendioso. Tais formas estão mais no regime das emoções e das sensações pessoais do que em estratégias distintivas de classe social. 14Hoje em dia, por exemplo, vendem-se mais cremes antirrugas do que maquiagem. O luxo passou a ser outra coisa.
    5O luxo continua sendo uma raridade. O que é raro nos dias de hoje? 2Segundo o sociólogo Domenico de Mais, primeiro, o tempo. Nossa maior riqueza é o tempo. Segundo, a autonomia; terceiro, o silêncio; quarto, a beleza; e, quinto, o espaço. São esses os cinco elementos do luxo. Ele acrescenta dizendo que o grande luxo é gostar de comer pêssegos e damascos sabendo que 12pêssegos e damascos são originários da China - e da China quando o Japão a invade e os rouba, levando-os para a Pérsia, que os difunde por toda a Europa. Ao saber disso, a pessoa percebe um sabor inédito ao colocar um pêssego ou um damasco na boca.
    Muito menos ligadas nas vias do olhar do outro, hoje em dia as práticas do luxo são muito mais dominadas pela busca de saúde, do experencial, do sensitivo, do bem-estar emocional. Teatro das aparências, o luxo se põe a serviço do indivíduo em sua vida íntima e em suas sensações subjetivas. 6Na nossa sociedade, o luxo é aquilo capaz de ressuscitar uma aura do sagrado e da tradição formal, que fornece tonalidade cerimonial ao universo das coisas e que reinscreve a ritualidade no mundo desencantado, "massimediatizado" da consumação.
    10Nossa relação com o luxo é nossa necessidade, nesse momento, de nos subtrair à inconsistência do efêmero, e de tocar em solo firme, sedimentado, em que o presente esteja carregado de uma referência durável. Por aí há uma surda necessidade espiritual. Alguma coisa que paire sempre sobre os nossos desejos de gozar, como os deuses, das coisas mais raras e belas que existem. Cada vez mais, haverá um luxo para cada um.

Jorge Forbes. Folha de S. Paulo, 23 de fevereiro de 2004.

Em:

    "... pêssegos e damascos são originários da China - E da China quando o Japão a invade e os rouba..." (ref. 12)

a conjunção E tem valor

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