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Exercícios de Gramática

Listagem de exercícios

UNAMA 2006

MAMÃE DOLORES, SEM ERRADA (OU UMA METÁFORA?)

Houve uma época em que eu fiquei atarantadinho com o desenrolar de uma novela das nove, das oito, das oito e meia, sei lá. Tava já odiando uma dita personagem pela desmedida maldade da pivide.

Do lado de cá da telinha, fazia o meu papel na trama. Nutria, virtualmente, uma ira transbordante pela bandidinha por causa de tantas armações sórdidas a fim de quebrar a coitadinha da mocinha.

Para mim tava tudo muito claro. A mocinha era a fulana e a bandida era a sicrana. Quando de repente, tóim óim, óim! Nada disso. Uma, de santa, virou a sacripanta, a nojentinha da trama; e a outra, de megera, passou a donzela, a coitadinha. Mudou tudo assim, sem que ninguém me avisasse.

Protesto! Assim não dá! Não dá nem pra gente pôr um short largo feito em casa, um chinelo friozinho de tão gasto, encher uma combuquinha de doce de leite com farinha, ralhar os pequenos por silêncio, e assistir a nossa novela em paz, meu pai! Não dá assim, com a gente se enganando com as caras.

Estes novelistas modernos, estas tramas realistas, estas performances textuais, credo!

Bom mesmo era no tempo de O Direito de Nascer:

Mamãe Dolores era a bondade plena; Albertinho Limonta, o mocinho enjeitado; sóror Helena, a coitadinha que comia o pão que o diabo amassou e a Isabel Cristina, hein, a Isabel Cristina, um bibelô, peça de cristaleira, fina, melindrosa, delicada. Um mimo irretocável. Estes formavam o cast do bem e dali ninguém os tirava.

De outro lado, os mausãos fazendo de um tudo pra criar desgraças aos pobrezinhos. Mas a gente aqui, ó, tranqüilinhos (choramingando aqui e ali com tanto sofrimento dos nossos queridinhos, roendo as unhas quando D. Raphael ficava em tempo de dar um flagra no beijo – selinho, selinho inocente – entre o enjeitado Albertinho Limonta e a Isabel Cristina – ah, a Isabel Cristina, um brinco! Mas tranqüilinhos só esperando o fim da novela pra dizer bem feito, pro vilão). Bem feito pr’ele, ô homem nojento, maldito, que dá tanta raiva!

A turma fincava o esqueleto na janela do vizinho todas as noites para interagir (nesse tempo não se falava interagir, mas as pessoas se irritavam, choravam, xingavam, afagavam com palavras doces... Mas tudo bem divididinho, cada um para o seu cada qual).

Naquela, na boa novela, no bom e velho dramalhão, não tinha errada. Pau que nascia torto, morria torto mesmo. Às vezes, um ou outro vilão se arrependia, mas não adiantava, o destino já estava traçado pela audiência: ou ficava louco ou morria num incêndio, ou os dois juntos. A Glória Magadan não tinha pena, botava pra chulear, pra cima deles.

Hoje em dia, não tem graça. A gente se prega na frente da TV e não sabe nem a quem jogar uma praga. Antes, pelo menos, quem era bonzinho era bonzinho até o fim e quem era mau, levava o farelo mesmo que fosse no último capítulo, sob as, até então, improváveis chamas. Hoje em dia, olha só aonde fomos parar, numa confusão de caras limpas, discursos éticos, firulas morais, que nos levam por uns instantes prolongados, a torcer pelas nojentinhas, pelos nojentinhos...

(Raimundo Sodré.O Liberal, 13 de maio de 2006)

 

Sobre a linguagem com que o cronista produziu esta crônica, considere as seguintes afirmativas:

 

I. Na seleção dos itens lexicais, evidencia-se o nível coloquial.
II. Em algumas passagens, as expressões usadas são típicas da oralidade.
III. O coloquialismo, salvo uma ou outra exceção, não compromete as sintaxes de concordância e de regência conforme a variedade padrão.

 

São corretas:

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