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Exercícios de Espanhol

Listagem de exercícios

UNIPAM 2014

Entrevista com Jean-Bertrand Pontalis

Por Mario Sabino, de Paris

 

O elogio da verdadeira amizade

O filósofo, psicanalista e escritor, um dos maiores intelectuais da França, fala da diferença entre amigos e amores e relembra de sua convivência com Sartre

P1 — O que é um amigo?O título do meu livro sobre esse tema é sugestivo sobre a dificuldade de definir a amizade: Le Songe de Monomotapa (“O sonho de Monomotapa”). Trata-se de uma alusão a uma fábula de Jean de La Fontaine (escritor francês do século XVII). Na fábula, dois amigos vivem nesse país de nome estranho, e um não possui nada que não pertença ao outro. Não haveria amizade mais verdadeira, portanto, nem mais doce, como diz La Fontaine. Mas ela talvez só seja possível na literatura. Por isso, entre as reflexões que faço sobre a amizade, acho que a melhor síntese em resposta à sua pergunta é que um amigo de verdade é aquele que nos protege dos tormentos do amor, nos afasta da fúria raivosa, faz recuar a morte.

 

P3 — Mas a procura da amizade pode ser vã. Pode, é claro, mas seria uma lacuna bem triste no meu caso — embora haja quem conviva bem apenas com colegas ou camaradas. Coleguismo e camaradagem são formas de amizade que, se não nos fazem sentir mais fortes, mais vivos — é isso que quero dizer com “recuar a morte”—, ao menos afastam um pouco a solidão amarga. Nunca deixei de ter muitos amigos, é algo vital para mim. Evidentemente, mesmo a amizade mais verdadeira não é feliz durante todo o tempo. Às vezes, podemos nos afastar, até por razões geográficas, ou ter disputas que superam a simples discordância a respeito deste ou daquele assunto. A distância e as fricções, no entanto, jamais significaram um rompimento definitivo com meus amigos. Há quem faça o elogio da amizade sem conseguir cultivá-la. É o caso de Proust (Marcel Proust, o maior dos escritores modernos franceses). Ele teve uma profusão de amigos, mas no monumental Em Busca do Tempo Perdido há um julgamento severo sobre a amizade. Ele diz, em resumo, que ela requer um “eu superficial” — que a profundidade do “eu” passa longe da relação com um amigo. Estáclaro que sofreu uma decepção com a amizade. Tanto que terminou seus anos fechado num quarto, isolado, escrevendo a obra que considerava ser sua “verdadeira vida”.

 

P4 — A amizade é mais vital do que o amor? Não é mais vital, faz parte de outra esfera. Como eu disse, o amor traz tormentos, porque é impulsionado pela paixão. O amor é, ainda, menos durável, não se consegue mantê- lo continuamente no nível do ardor inicial. Já se falou bastante sobre qual seria a diferença entre amor e amizade. A meu ver, o amor visa à satisfação plena, um objetivo tão vago quanto inalcançável. Ocorre, então, um paradoxo: a partir de determinado momento, ele passa a alimentar-se da insatisfação absoluta. Como escrevo no meu livro, talvez só o amor místico seja a exceção. A amizade, por seu turno, nunca almeja a plenitude. Você não pode esperar tudo de um amigo, muito menos a perfeição, mas só uma amizade verdadeira é capaz de nos proteger das oscilações tumultuosas, da ambivalência intrínseca à relação amorosa — e também do fim do amor, quando é comum que sobre apenas o ódio de quem você amou e por quem você foi amado. O ódio, aliás, dura mais do que o amor.

 

Leia, com atenção, o fragmento do poema Olhos verdes, de Gonçalves Dias.

 

São uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos de verde-mar,

Quando o tempo vai bonança;

Uns olhos cor de esperança,

Uns olhos por que morri;

Que ai de mim!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi! [...]

 

Dizei vós, ó meus amigos,

Se vos perguntam por mim,

Que eu vivo só da lembrança

De uns olhos cor de esperança,

De uns olhos verdes que vi!

Que ai de mim!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

 

Dizei vós: Triste do bardo!

Deixou-se de amor finar!

Viu uns olhos verdes, verdes,

uns olhos da cor do mar:

Eram verdes sem esp’rança,

Davam amor sem amar!

Dizei-o vós, meus amigos,

Que ai de mim!

Não pertenço mais à vida

Depois que os vi!

(Em Poemas de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d, p.137-139)

 

Considere os seguintes fragmentos adaptados da entrevista.

 

I. Um amigo de verdade é aquele que protege o outro dos tormentos do amor, afasta esse outro da fúria raivosa e faz recuar, para esse outro, a morte. (P1)

II. Mesmo a amizade mais verdadeira não se mantém feliz durante todo o tempo. (P3)

II. Não se pode esperar tudo de um amigo, muito menos a perfeição. (P4)

IV. Uma amizade verdadeira é capaz de proteger o outro das oscilações tumultuosas, da ambivalência intrínseca à relação amorosa. (P4)

 

A concepção de amigo/amizade depreendida do poema Olhos verdes pode ser explicitada por

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